Como entreter filhos com autismo na quarentena

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O isolamento social adotado mundialmente em função da pandemia do novo coronavírus (COVID-19) trouxe inúmeros desafios, tanto para a sociedade como um todo, quanto em nível individual, doméstico. Diversas adaptações da rotina estão sendo feitas devido à quarentena, o que acaba refletindo no relacionamento das pessoas que moram juntas, como pais e filhos, por exemplo. Nos casos dos pais que têm crianças com necessidades especiais, como o autismo, os desafios são ainda maiores neste período.

Principais sintomas do autismo

Segundo o UNA-SUS, sistema vinculado ao Ministério da Saúde, o autismo é um distúrbio que compromete cada paciente de uma forma, em vários níveis diferentes, e por isso se fala em espectro autista. Este transtorno afeta cerca de 20 a cada 10 mil nascidos e é mais comum no sexo masculino, de acordo com informações da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Crianças que são diagnosticadas como pertencentes ao espectro autista apresentam como sintomas predominantes a dificuldade de socialização e de compreensão de condutas sociais, o comprometimento da comunicação social, além de padrão restrito e repetitivo de atividades.

O paciente com autismo tende a ignorar aspectos que vem do mundo exterior (especialmente interações sociais), mantém boas relações com objetos e costuma ser excessivamente ansioso, de acordo com o manual Autismo: Orientação Para Pais, elaborado pela Casa do Autista e pelo Ministério da Saúde. Logo, é preciso muito cuidado e paciência no trato com esses pequenos no dia a dia.

Alguns dos comportamentos característicos do transtorno, como a tendência à repetição e a dificuldade de lidar com mudanças, acabam se traduzindo em apego excessivo à rotina. Isso explica bem porquê as famílias com indivíduos com autismo encontram muito mais dificuldade para lidar com as mudanças trazidas pela quarentena.

A criança com autismo, quando se depara com situações que a colocam fora da sua zona de conforto e controle, tende a ter reações negativas, como o aumento dos níveis de estresse e de ansiedade, o que pode resultar em um comportamento agressivo e até explosivo. Por conta desse risco, é fundamental a atuação dos pais e cuidadores para ajudar o indivíduo a assimilar e a aceitar a nova realidade o mais rápido possível.

Conduta dos pais que convivem com filhos com autismo na quarentena

O primeiro passo para ajudar o filho com autismo a se adaptar ao confinamento é conversar com a criança, explicando cuidadosamente e de um jeito simples a situação e a necessidade das adaptações na rotina, de preferência utilizando estímulos visuais, gestuais e muito “olho no olho”. Estes são recursos indicados no trato com crianças no espectro do autismo. O indivíduo com autismo precisa entender o motivo de não poder sair de casa e, por isso, os pais devem falar sobre o assunto várias vezes, até que ele se acostume com a nova realidade.

Feita esta primeira parte, chega o momento de colocar em prática as atividades que vão compor a nova rotina da criança. É fundamental que elas sejam seguidas com horários e dias estabelecidos e que sejam estimulantes para o filho. Além disso, é crucial a interação dos pais nessas atividades. Assim, o resultado é muito mais efetivo, prazeroso e produtivo do que simplesmente deixando a criança sozinha de frente para a televisão. Momentos de leitura e jogos com os pais, por exemplo, são bem mais relevantes. Além disso, dentro do possível, tente manter a rotina do indivíduo.

Uma das formas de manejar alguns aspectos do autismo é recorrer à musicoterapia. Durante este período de quarentena, os pais podem usar a música e os sons para se comunicar com a criança, como o musicoterapeuta costuma fazer. De acordo com o manual Autismo: Orientação Para Pais, a musicoterapia consiste em cantar, tocar instrumentos, compor canções, ouvir músicas e barulhos e se movimentar a partir desses sons. Contudo, vale ressaltar que alguns indivíduos com autismo apresentam sensibilidade aumentada a sons, e nesses casos é importante avaliar se há benefícios e o padrão de música mais adequado.

Os pais que estiverem dispostos a participar de atividades físicas e que tiverem espaço em casa têm uma grande variedade de brincadeiras à disposição: vale estimular o filho autista a pular, brincar de cavalinho e correr, por exemplo.

Caso esteja difícil achar atividades suficientes para montar um cronograma semanal que agrade seu filho, aposte na tecnologia como fonte para descobrir passatempos infantis interessantes. Há diversas contadoras de histórias com didática profissional usando a internet para manter o contato com os pequenos nesse período de quarentena, por meio de transmissões de vídeos ao vivo (às quais as crianças autistas costumam responder melhor).

Manutenção do tratamento mesmo em isolamento é essencial

Outro ponto muito importante para pacientes com autismo neste período de isolamento social é a manutenção do contato com os profissionais que acompanham seus tratamentos, como psicólogo, psiquiatra e fonoaudiólogo. O tratamento do autismo precisa ser contínuo para manter o risco de acentuação dos sintomas o mais baixo possível. Mesmo dentro de casa, é importante manter o tratamento proposto.

De acordo com o Manual de Orientação desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e que trata  sobre o transtorno do espectro do autismo, o pediatra tem um papel muito importante no acolhimento, instrumentalização, capacitação e incentivo aos pais quanto às questões de cognição, comportamento, socialização e rotina das crianças autistas. Portanto, a participação deste especialista também é fundamental para o sucesso do tratamento.

 

Dados do UNA-SUS: https://www.unasus.gov.br/noticia/o-que-e-autismo-0

Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz): http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/autismo.htm

 Autismo: Orientação Para Pais: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cd03_14.pdf

Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP): https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/transtorno-do-espectro-do-autismo/

COLABORARAM NESTE CONTEÚDO: 
Dra. Stephanie Toscano Kasabkojian

Dra. Stephanie Toscano Kasabkojian

Psiquiatria

CRM: 175618 / SP

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