Quais as principais diferenças entre as vacinas contra o coronavírus?

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Diante da pandemia do coronavírus, diversas foram as iniciativas para buscar vacinas seguras e eficazes para o controle da doença. Em 11 de Fevereiro, havia 69 vacinas sendo testadas em estudos clínicos em humanos, e 20 delas estavam em etapas finais de testagem. Muitas outras estão em etapas preliminares, como os estudos em modelos animais. Os mecanismos de ação dessas vacinas variam significativamente; enquanto algumas utilizam plataformas bem estabelecidas, outras dispõem de propostas inovadoras, que estão sendo validadas nos mais diversos estudos.

No Brasil, em 17 de Janeiro, duas vacinas, desenvolvidas pela parceria Oxford – AstraZeneca e pela empresa chinesa Sinovac, em conjunto com o Instituto Butantan, foram aprovadas pela ANVISA para uso emergencial.

A primeira vacina, que vem sendo chamada de “vacina de Oxford”, utiliza uma tecnologia conhecida como vetor viral, na qual utiliza-se um vírus conhecido (no caso, um adenovírus) e adiciona-se a ele o material genético capaz de produzir uma parte específica do vírus SARS-CoV-2, as chamadas “spikes” ou proteína S, que são responsáveis por permitir a entrada do vírus nas células. Uma vez administrado, o adenovírus carregando o gene é capaz de entrar nas células do indivíduo que receber a vacina sem, no entanto, causar doença. O material genético proveniente do SARS-CoV-2, já dentro das células, faz com que essas possam produzir e expressar em suas superfícies proteínas e fragmentos de proteínas S, que são reconhecidas pelo sistema imunológico, o sistema de defesa do corpo humano. A partir desse reconhecimento, há a síntese de anticorpos que tem como alvo a proteína S. Caso haja, posteriormente, a infecção pelo SARS-CoV-2, os anticorpos são capazes de se ligar às “spikes” do vírus e marcá-lo para que seja destruído, além de acionar outras células de defesa para que destruam células já infectadas, que expressem a proteína S em sua superfície.

Vacinas que utilizam o adenovírus como vetor viral vem sendo pesquisadas há décadas; houve, inclusive, a aprovação recente da primeira vacina que utiliza uma base similar, contra o Ebola. A vacina de Oxford, por utilizar o adenovírus, é capaz de proteger o material genético, não sendo necessário o congelamento. Dessa maneira, a vacina pode ser conservada em temperaturas entre 2 e 8ºC, o que representa uma significativa vantagem logística. O estudo clínico que comprovou a sua eficácia demonstrou a necessidade de recebimento de duas doses, com intervalos de 4 semanas.

Já a segunda vacina mencionada, denominada CoronaVac, conta com o vírus inativado, tecnologia que vem sendo utilizada desde meados do século vinte, e que tem por objetivo ensinar o sistema imune a produzir anticorpos contra os vírus, no caso, o SARS-CoV-2.

Para tanto, utilizou-se um composto que foi capaz de impedir a multiplicação do coronavírus, mas mantendo suas proteínas, inclusive os “spikes”, intactos. Os coronavírus estão mortos, não podendo, portanto, provocar doença. Mesmo assim, a simples presença do vírus morto faz com que o nosso sistema imunológico o reconheça e entre em ação, produzindo anticorpos que são capazes de combater o vírus vivo, caso haja uma infecção por ele posteriormente.

A CoronaVac também necessita de duas doses, sendo a segunda aplicada entre 2 e 4 semanas após a primeira. As suas necessidades para conservação também são vantajosas, especialmente em um país continental como o Brasil. Isso pois, para essa vacina, é necessária apenas a refrigeração, e não o congelamento em baixíssimas temperaturas.

Outras duas vacinas estão em análise pela ANVISA, fabricadas pelas farmacêuticas Jannsen e Pfizer. Apenas a segunda pleiteou a aprovação do uso emergencial à agência regulatória brasileira, em 05 de Fevereiro. Essa vacina, desenvolvida por meio de uma parceira da Pfizer com a empresa alemã BioNTech, já vem sendo utilizada em diversos outros países, e utiliza uma do chamado RNA mensageiro, ou RNAm, que é o material genético que as células humanas precisam ler para produzir proteínas. Quando injetada, a vacina faz com que as células produzam as proteínas denominadas “spike”, que posteriormente são liberadas no corpo e estimulam uma resposta do sistema imunológico. Devido a fragilidade da molécula de RNAm, foi necessário utilizar uma estrutura para protegê-lo até a sua entrada na célula, bem como conservá-lo e transportá-lo, sendo necessárias temperaturas de -70ºC. Os estudos clínicos demonstraram a necessidade de 2 doses, aplicadas com intervalos de 21 dias, para atingir a eficácia apresentada por eles.

Além da vacina da Pfizer, aquela produzida pela farmacêutica americana Moderna também utiliza a tecnologia do RNA mensageiro para induzir uma resposta imune. Para essa vacina, são necessárias 2 doses, aplicadas com o intervalo de 4 semanas; o seu armazenamento, por sua vez, deve ocorrer a -20ºC.

A vacina da Jannsen, que vem sendo avaliada pela ANVISA, também utiliza um adenovírus como vetor viral, e tem como grande diferencial a aplicação em dose única, capaz de promover resposta imunológica. Depois dessas, a vacina produzida na Rússia e denominada Sputinik V também recebe particular atenção, e teve seu estudo de fase III publicado recentemente. Ela também utiliza adenovírus, porém em combinação, como plataforma, e demanda a aplicação de 2 doses.

O conhecimento a respeito das vacinas em estudo e disponibilizadas nos diversos países é crescente, e essas representam atualmente a principal estratégia para o controle da pandemia.

Fontes:

https://portal.fiocruz.br/pergunta/como-e-feita-vacina-candidata-da-covid-19-da-universidade-de-oxford/astrazeneca

https://www.pnas.org/content/111/34/12283#:~:text=Influenza%20vaccine%20was%20the%20first,on%20chemical%20inactivation%20(47).

https://www.nytimes.com/interactive/2020/science/coronavirus-vaccine-tracker.html

https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2020/andamento-da-analise-das-vacinas-na-anvisa

COLABORARAM NESTE CONTEÚDO: 
Anna Paula Bispo Lacerda

Anna Paula Bispo Lacerda

Farmácia

CRM: CRN3- 49421 / SP

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